segunda-feira, 4 de junho de 2018

O que são Versos Brancos?



Fonte: todamateria.com.br



Na teoria da literatura, os Versos Brancos, também chamados de “Versos Soltos” são aqueles que não apresentam esquemas de rima, entretanto podem apresentar métrica (medida).
Os versos brancos são muito utilizados desde o século XVIII no Brasil, sobretudo na poesia romântica, moderna e contemporânea.
Observe que o verso é o nome dado a uma linha da poesia, sendo o conjunto deles, denominado de estrofe. A rima representa aproximação de sons entre as palavras de um verso.
Rima é um recurso estilístico muito utilizado nos textos poéticos, sobretudo na poesia, a qual proporciona sonoridade, ritmo e musicalidade.
Ela ocorre nos versos, ou seja, nas linhas dos poemas, e designa a repetição de sons idênticos ou semelhantes no final dos vocábulos ou das sílabas poéticas. O conjunto de versos é denominado estrofe.
Os versos que compõem os textos poéticos, e que não apresentam rimas, são chamados de versos brancos ou versos soltos. O “Poema em Linha Reta” do escritor português Fernando Pessoa é um exemplo disso, uma vez que seus versos não rimam.
“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.”

Metrificação e Versificação
A arte de compor versos e reunir diversos aspectos dos textos poéticos, como a musicalidade, rima, ritmo e encadeamento é chamado de versificação. Por sua vez, o estudo sobre as medidas apresentadas no verso é chamado de metrificação, feita por meio do processo denominado escansão de versos.
De tal modo, a escansão é a contagem das sílabas poéticas por meio da união de algumas sílabas quando houver som fraco e forte e somente até a última sílaba tônica de cada verso.
Lembre-se que a métrica é a medida do verso e a metrificação é o estudo dessas medidas. Além disso, devemos atentar para as diferenças entre as sílabas poéticas (que admite a sonoridade e musicalidade) e as sílabas gramaticais (segundo as normas da língua) por exemplo:
O/ poe/ ta é/ um/ fin/ gi/ dor - 7 Sílabas literárias
O/ po/ e/ ta/ é/ um/ fin/ gi/ dor - 9 Sílabas gramaticais




Metrificação

A Metrificação é a forma utilizada na Poética para medição de versos (metro), sendo, portanto, o estudo dessa medida.
Ela é feita mediante a escansão - que consiste na contagem dos sons e dos versos a partir da elevação de ritmo ou tonicidade das palavras - e, uma vez que a poesia teria originalmente a função de ser cantada, esses fatores desempenhavam particular importância, visto que os efeitos desejados eram obtidos através da regularidade dos versos, bem como das rimas.
Assim,
Metro = medida do verso.
Metrificação = estudo do metro.

Recursos Utilizados
A medição de versos obedece às seguintes particularidades:
·         Sinalefa: Junção de duas sílabas numa só, por elisão, crase ou sinérese.
·         Elisão: Supressão da vogal final átona quando esta estiver diante da vogal que inicia a palavra que se segue.
·         Crase: Fusão de vogais iguais.
·         Sinérese: Contração de duas vogais contíguas em um ditongo.
·         Diésere: Separação de vogais numa mesma palavra, constituindo duas sílabas distintas.
·         Hiato: Encontro de duas vogais átonas, constituindo uma única sílaba.

Sílabas Literárias X Sílabas Gramaticais
A contagem das sílabas literárias, ou poéticas, se distingue da contagem das sílabas gramaticais. Isso porque enquanto na gramática se considera o número de sílabas gráficas, na literatura se considera o número de sílabas sonoras.
Há duas regras que diferenciam as sílabas literárias:
·         Contar somente até a última sílaba tônica de cada verso;
·         Unir sílabas quando houver som fraco e forte ou vice versa.
Exemplos:
O/ poe/ ta é/ um/ fin/ gi/ dor - 7 Sílabas literárias
O/ po/ e/ ta/ é/ um/ fin/ gi/ dor - 9 Sílabas gramaticais
_____________________________________________
Fin/ ge/ tão/ com/ ple/ ta/ men/ te - 7 Sílabas literárias
Fin/ ge/ tão/ com/ ple/ ta/ men/ te - 8 Sílabas gramaticais
_____________________________________________
Que/ che/ ga a/ fin/ gir/ que é/ dor - 7 sílabas literárias
Que/ che/ ga/ a/ fin/ gir/ que/ é/ dor - 9 Sílabas gramaticais
_____________________________________________
A/ dor/ que/ de/ ve/ ras/ sen/ te - 7 sílabas literárias
A/ dor/ que/ de/ ve/ ras/ sen/ te - 8 Sílabas gramaticais
(Parte de “Autopsicografia”, de Fernando Pessoa)

Classificação dos Versos
Mediante o número de sílabas poéticas, os versos são classificados da seguinte forma:
·         Monossílabos - 1 sílaba
·         Dissílabos - 2 sílabas
·         Trissílabos - 3 sílabas
·         Tetrassílabos - 4 sílabas
·         Pentassílabos (ou Redondilha Menor) - 5 sílabas
·         Hexassílabos (ou Heróico Quebrado) - 6 sílabas
·         Heptassílabos (Redondilha Maior) - 7 sílabas
·         Octossílabos - 8 sílabas
·         Eneassílabos - 9 sílabas
·         Decassílabos - 10 sílabas
·         Hendecassílabos - 11 sílabas
·         Dodecassílabos - 12 sílabas
·         Bárbaros - mais do que 12 sílabas
Quando os versos têm o mesmo número de sílabas poéticas, ou seja, são regulares, eles recebem o nome de isométricos.
Camões compôs todo “Os Lusíadas” em decassílabos, sendo assim, considerada o melhor exemplo de versos isométricos.
Por outro lado, quando os versos não apresentam regularidade, são chamados de heterométricos, bem como são chamados de versos livres aqueles que não obedecem qualquer forma.
Os versos livres foram largamente utilizados pelos modernistas, de modo que a liberdade e o abandono das formas fixas foi das principais caraterísticas da Escola Moderna.

Metrificação de Soneto de Fidelidade
Vejamos como fazer a metrificação neste soneto escrito pelo poeta e compositor brasileiro Vinícius de Moraes, todo ele escrito em decassílabos:
“De/ tu/do ao/ meu/ a/mor/ se/rei/ a/ten/to
An/tes/, e/ com/ tal/ ze/lo, e/ sem/pre, e/ tan/to
Que/ mes/mo em/ fa/ce/ do/ mai/or/ en/can/to
De/le/ se en/can/te/ mais/ meu/ pen/sa/men/to.
Que/ro/ vi/vê-/lo em/ ca/da/ vão/ mo/men/to
E em/ seu/ lou/vor/ hei/ de es/pa/lhar/ meu/ can/to
E/ rir/ meu/ ri/so e/ de/rra/mar/ meu/ pran/to
Ao/ seu/ pe/sar/ ou/ seu/ con/ten/ta/men/to.
E a/ssim/, quan/do/ mais/ tar/de/ me/ pro/cu/re
Quem/ sa/be a/ mor/te, an/gús/tia/ de/ quem/ vi/ve
Quem/ sa/be a/ so/li/dão/, fim/ de/ quem/ a/ma.
Eu/ po/ssa/ me/ di/zer/ do a/mor/ (que/ ti/ve):
Que/ não/ se/ja i/mor/tal,/ pos/to/ que écha/ma
Mas/ que/ se/ja in/fi/ni/to en/quan/to/ du/re.”

Tipos de Versos
Segundo a métrica (medida dos versos) utilizada nos textos poéticos, eles são classificados em:
·         Monossílabo: uma sílaba poética
·         Dissílabo: duas sílabas poéticas
·         Trissílabo: três sílabas poéticas
·         Tetrassílabo: quatro sílabas poéticas
·         Pentassílabo ou Redondilha Menor: cinco sílabas poéticas
·         Hexassílabo: seis sílabas poéticas
·         Heptassílabo ou Redondilha Maior: sete sílabas poéticas
·         Octossílabo: oito sílabas poéticas
·         Eneassílabo: nove sílabas poéticas
·         Decassílabo: dez sílabas poéticas
·         Hendecassílabo: onze sílabas poéticas
·         Dodecassílabo ou Alexandrino: doze sílabas poéticas
·         Verso Bárbaro: verso com mais de doze sílabas poéticas
Veja mais sobre o conceito: 

Versos Brancos e Versos Livres
Quando falamos em versos brancos não devemos confundir com a definição de versos livres, denominados de versos irregulares (heterométricos). Já destacamos acima que os versos brancos são aqueles que não apresentam rima, entretanto, os versos livres representam os versos que não possuem medida definida, ou seja, não seguem o esquema de metrificação. Para tanto, uma poesia pode apresentar versos libres e brancos ao mesmo tempo

Exemplo de Versos Brancos e Versos Livres
Para exemplificar melhor o conceito de versos brancos e livres (versos sem rima e métrica), observe o poema abaixo do escritor Mário Quintana (1906-1994):
Esperança
“Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...”

Exemplo de Versos Brancos
Na obra intitulada “Meus Versos Mais queridos” (1967) do escritor brasileiro Guilherme de Almeida (1890-1969), há um poema chamado “Versos Brancos”, o qual agrega o próprio conceito, ou seja, não apresenta rimas:
Versos Brancos
“Uma fina saudade vai varando
a quietude cansada do meu tédio.
Mas, saudade do quê? de quem?...
Os dias
são bolas de cristal, azuis, polidas,
lisas, sem uma aresta traiçoeira
em que venha prender-se e estraçalhar-se
o véu de um pensamento de outros tempos;
sem nem o esconderijo de uma nuvem
onde fique um olhar longo de outrora
olhando para as cinzas destes instantes;
nem uma sombra forte em que se oculte
um pedaço perdido de passado...
Tudo, em torno de mim, é luminoso,
alto e macio, deslizante e lindo;
tudo é apenas um lúcido presente:
é a negação perfeita da saudade...
E no entanto – por quê? por quem?... – eu vejo
e ouço passar na terra a minha vida
cantando uma cantiga vagarosa
de água que leva flores na descida...”