domingo, 27 de outubro de 2013

Clamor pela natureza má do homem




DEUS! Tenho buscado a sinceridade.
DEUS! Tenho me esforçado na honestidade.
DEUS! Busco não enganar as pessoas.
DEU!, Luto para falar palavras verdadeiras.
DEUS! Não quero pensar em futilidades.
DEUS! Não consigo controlar meu pensamento.
Sabe DEUS? O pensamento é o meu maior tormento.
No cotidiano vejo coisas horríveis, minha alma até gosta...
Angustias indescritíveis tomam conta de mim, meu DEUS...
O mal tem morada fácil neste corpo feita para louvar-TE.
Como pode amar-TE tanto e não conseguir agradar-TE...
DEUS! Vejo o Templo repleto de sujeiras: pó, teias, mal cheiros.
DEUS meu! Estou entrando em desespero...
“Elevo os olhos para os montes de onde me virá o socorro?”
Dores profundas atormentam minha alma, ela não tem calma!
Cito trechos dos Salmos de Davi nessa oração, quero alimentar a fé...
Não consigo ver amigos, onde estão meus irmãos?
Como o Profeta Elias, busco uma caverna, para esconder-me.
Ouço bocas falarem o que não fazem, louvam a Deus e caluniam seu próximo.
Quando será o dia da GRANDE FÚRIA? Quando chegará a SUA justiça?
Entretanto, minha alma espera em TI; OH DEUS DE ISRAEL!
Sabe DEUS? Eu fico a pensar... Qual o homem que pode escapar da sua IRA?
Perdoa-me DEUS! Hoje não consigo acreditar em ninguém, estou paranoico.
O pecado tornou-me um homem ansioso, quase deprimido.
Mas, mesmo assim, não consigo deixar de fazer o bem, de ajudar as pessoas,
Isso tem me deixado muito mal, sou julgado e condenado. O opróbrio me persegue.
A humanidade se corrompeu e o que fala sinceridades é inimigo mortal do sistema.
DEUS! Onde o homem estará seguro nesse mundo?
DEUS! Onde estão os que não aceitam viver nas leis do “sistema”?
Agora.  Pois, oh DEUS, usa de misericórdia comigo pois me atrever falar-TE.
Tenha misericórdia , também, oh DEUS, das pessoas sabias a seus próprios olhos.
A  humanidade vive uma utopia e quer ser deus, mas não sabem o que fazem.
Muitos criaram seus próprios deuses! Para justificar seus pecados e alimentar os seus desejos.
Lendas criaram para eles e seus filhos; assim ignoram sua palavra que existe eternamente.
Meu DEUS! Se apresse em salvar os que andam em sinceridade e justiça.
Faço menção ao TEU ESPÍRITO quando usou o Profeta Malaquias dizendo:
Mas para vós, os que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, e cura trará nas suas asas; e saireis e saltareis como bezerros da estrebaria.
Malaquias 4:2

Assim minha alma ganha alento e a fé cresce diante de SUAS promessas.
Quando diz:
“Bem-aventurado aquele que teme ao SENHOR e anda nos seus caminhos.
Pois comerás do trabalho das tuas mãos; feliz serás, e te irá bem.
A tua mulher será como a videira frutífera aos lados da tua casa; os teus filhos como plantas de oliveira à roda da tua mesa.
Eis que assim será abençoado o homem que teme ao Senhor.
O Senhor te abençoará desde Sião, e tu verás o bem de Jerusalém em todos os dias da tua vida.
E verás os filhos de teus filhos, e a paz sobre Israel.”

Salmos 128:1-6
 
Graças te dou SENHOR pela TUA  palavra, ela é o meu remédio de todos os dias.
Amém!


Oração escrita pelo: Pastor e Professor Jair de Oliveira Filho

sábado, 26 de outubro de 2013

A sedução do pantanal






Neste momento me pego olhando para ela,
Como é linda, cheia de esplendor.
O sol revela suas belezas sem segredos.
Ao amanhecer os raios refletem sua alegria,
E ao anoitecer a calma singela traz arrepios.
Em seu encanto se abre uma flor,
Em sincronia a flor cerra suas pétalas.
Mas sua beleza em grande diversidade de cores,
Que pelo seu corpo não pouco saliente, faz um jogo.
Um jogo de sedução, assim conquista o seu visitante. 
Envolvimento místico, transcende à paixão, e  enraíza o amor.   
Na sua beleza os mistérios parecem infinitos.
Tocá-la traz uma grande expectação de vida.

O perigo de adentrá-la é grande e provoca temor.
O paradoxo está na maravilha da bela a fera e o abrigo,
Dar a muitas vidas segurança em sua fartura.
Tem tudo: água para cedendo e alimento para o faminto.
Todos a desejam, de longe vem conhecer a tão amada,
 Seja rasgando os céus, singrando os mares ou pelas estradas,
Munidos de filmadoras ou máquinas fotográficas vem impor
O amor com suas mensagens fotográficas.
A sua beleza, cheia de encantos é a expressão do amor.
Nomeada riqueza ecológica e inspiração dos poetas,
Declamada por Mario Barro e Protegida por todos,
Na verdade ela é a natureza que encanta,
Que faz a emoção brotar, copiosamente, suas lágrimas.
Um sentimento que não se pode explicar.
Como tributo a sua natureza, resolveram lhe chamar Pantanal.
Em Mato Grosso do sul nasceu esse lindo lugar.
O amor ícone ecológico, conscientes todos abraçam com ardor,
Para proteger este quase infinito amor.

 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Impossível compreensão



Não se pode entender
Como pode o homem ser  mal,
Com  conhecimento de Deus, o poder.
Não posso crer no  lado animal.
Como pode falar coisas boas
E maltratar o ser humano?
Beija o rosto e  não perdoa
Fica infeliz se não for desumano.
Entendes  essa gente que a Deus louva?
E às escondidas faz tropeçar seu irmão?
Come e reclama, joga fora  quilos de alimentos
E nega ao pobre, seu próximo, o  pão.
O que será dessa geração cibernética?
Cuja  riqueza tecnológica fez seu coração.
Um PC de última geração, a matemática,
Como seu ponto supremo de direção,

Sepultando para sempre a emoção.

sábado, 19 de outubro de 2013

FERNANDO PESSOA - Odes de Ricardo Reis



Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.


Ricardo Reis, 14-2-1933

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A ficção contemporânea urbana (1970 a nossos dias)

      Revendo meus documentos encontrei este artigo maravilhoso, que ajudará o leitor a compreender parte da nossa história literária. Porém, não foi encontrado o endereço do criador deste artigo educacional, que mesmo assim dará frutos na educação e no preparo para concursos.
Adicionar legenda




A ficção contemporânea urbana (1970 a nossos dias)



A partir da década de 1970, a ficção brasileira de temática urbana foi condicionada por uma série de novos fatores econômicos, políticos e sociais, a saber:
- A ditadura militar prolongou-se por muito mais tempo que os oposicionistas imaginavam. O que era visto apenas como um golpe, condenado a curto prazo ao fracasso, consolidou-se como um longo regime com significativo apoio popular. Contudo, a crise do petróleo de 1973, os altos custos de empreendimentos estatais e as graves dificuldades do capitalismo internacional em fins dos anos 70 e início dos 80, fizeram com que a inflação se tornasse incontrolável. Só então a ditadura conheceu a impopularidade.
- Obrigados a entregar o poder à oposição confiável (Tancredo Neves-1985), os militares retiraram-se discretamente da política brasileira para não mais voltar. Uma democracia ampla e bastante liberal estabeleceu-se no país. A censura foi abolida, o habea-corpus restabelecido e as diversas formas de controle social foram completamente abrandadas. No entanto, a redemocratização não trouxe nem o controle da espiral inflacionária nem o retorno ao desenvolvimento. A derrubada da inflação viria ocorrer apenas com o Plano Real, em 1993.
- Os ideais esquerdistas-autoritários que imperavam entre a intelectualidade brasileira foram golpeados pelo desmantelamento da guerrilha (1969-1972) e, mais tarde, pela queda do Muro de Berlim e pelo colapso geral do socialismo. Muitos artistas e escritores viraram então "órfãos da utopia". Também o chamado "radicalismo democrático" da esquerda mais recente tem sido bastante abalado com a tendência centrista do governo Lula, o primeiro presidente a ser eleito por forças progressistas no país. Por isso, a "intelligentzia" parece ter perdido todos os seus referenciais utópicos, o que ajuda explicar um certo ceticismo generalizado que percorre a produção cultural contemporânea.

- Por outro lado, de 1970 para cá o Brasil configurou-se definitivamente como uma nação capitalista e moderna, ainda que cheia de desigualdades sociais. O espetacular crescimento econômico da década de 1970 (em média quase 10% ao ano) atraiu milhões de trabalhadores rurais para as cidades. Muitos se integraram satisfatoriamente à vida urbana; outros foram sobreviver em favelas que brotaram aos magotes. Hoje elas circundam as principais metrópoles do país. Nas décadas de 1980 e 1990, as taxas de crescimento da economia baixaram significativamente, não permitindo uma efetiva integração das camadas pobres ao establishement nacional.

- Ainda que o êxodo rural e o pífio desenvolvimento econômico dos últimos anos expliquem a ampliação do número de miseráveis, outra circunstância tem peso decisivo neste processo. A ilimitada liberação sexual, que estimulou a gravidez sobremodo entre adolescentes, fez com que, entre a população marginal (ao contrário de outros setores) o aumento da natalidade tivesse uma progressão geométrica, criando um problema praticamente insolúvel: como integrar ao sistema econômico os mais de cem milhões de brasileiros gerados nas últimas décadas?
- Ao mesmo tempo, no plano dos valores, assistiu-se à derrocada final dos códigos de existência da sociedade patriarcal/agrária, substituídos por novos comportamentos e novas expectativas, todos correspondendo a princípios urbanos e capitalistas. O domínio do individualismo, a busca da felicidade pessoal, tanto em seus aspectos emocionais quanto sexuais, o culto ao dinheiro e à fruição de bens de consumo constituíram, a partir de então, os pilares éticos da nova sociedade brasileira.

Face a tais transformações – vertiginosas e radicais – os escritores tiveram uma experiência coletiva de esfacelamento e pulverização da realidade, quando não de caos. A velha ordem desabava e um mundo instável, frenético e aparentemente irracional ocupava o seu lugar*.Todas estas mudanças influenciaram decisivamente a prosa de ficção de temática urbana das últimas décadas. Apesar da proximidade histórica do período, podemos apontar algumas das tendências essenciais que configuram a atual produção ficcional brasileira:


1) Desintegração das formas realistas tradicionais, que haviam predominado (com as exceções de Clarice Lispector, Murilo Rubião e João Guimarães) até o fim da década de 1960. A partir dos 70, rompe-se com a linearidade narrativa e abandona-se toda a pretensão de uma concepção totalizante e lógica do mundo. Em admirável ensaio, José Hildebrando Dacanal fixou o caráter desta decomposição do realismo:
O mundo está destroçado e não há como remontar seus estilhaços. Os personagens padecem de total desorientação, sendo incapazes de organizar-se a si próprios e, muito menos, ordenar o universo à sua volta. Desesperados, buscam uma verdade, sem saber se há possibilidades de encontrá-la. Ou nem mesmo a buscam, limitando-se a sofrer ou a protagonizar a desordem, a violência física e moral e a destruição das formas de convivência social. (...) À desintegração ética corresponde a desintegração técnica, com a estrutura narrativa revelando-se desordenada, fragmentada e geralmente sem um foco narrativo, ou ponto de vista único ou claramente definido.

Entre os autores que expressam esta tendência encontramos Rubem Fonseca (O caso Morel, Lúcia Mcartney); Ivan Ângelo (A festa); Roberto Drummond ( D.J. em Paris); Antonio Torres (Os homens de pés redondos, Um cão uivando para a lua e Essa terra); Lygia Fagundes Telles (As meninas); Márcio Souza (Galvez, o Imperador do Acre); e Sergio Sant´Ana (Confissões de Ralfo). Contudo, quem condensou mais radicalmente as inovações técnicas e expressou mais fielmente a natureza caótica da época foi Ignácio de Loyola Brandão com o polêmico romance Zero.
Não se pode subestimar tampouco a poderosa influência exercida sobre estes autores pelos ficcionistas do chamado “boom latino-americano”: García Márquez, Alejo Carpentier, Mario Vargas Llosa e Carlos Fuentes, entre outros, já tinham equacionado o problema da construção de um mundo romanesco, valendo-se de procedimentos narrativos revolucionários e ao mesmo tempo sendo capazes de apresentar sugestivas totalizações da realidade. Eram, portanto, modelos insuperáveis da nova ficção que aqui se procurava fazer.

Ressalte-se, por fim, que já no final da década de 1970 e nas décadas seguintes, esta força de desintegração, que parecia arrastar a prosa brasileira para o caos, recuou, dando lugar a uma razoável síntese entre ruptura e tradição, fragmentação e criação de mundo. Esta síntese poderia ser designada como uma nova forma de realismo. Quem melhor a elaborou nos últimos trinta anos foi Rubem Fonseca, especialmente em seus contos. Entre os autores recentes cabe papel de destaque a Miltom Hatoum com os excelentes romances Relato de um certo Oriente e Dois Irmãos.

2) A impossibilidade de uma visão totalizante da nova realidade – a busca da totalização é uma das características principais do romance – pode ser a causa do triunfo do conto, que se tornou o gênero mais praticado no país a partir dos anos 70. Lidando com o relato breve, o registro de um flagrante da existência, o conto passa mais ou menos incólume pela desintegração de sentido de uma época. Daí a quantidade de bons contistas que surgiram então. Entre eles destacam-se Sérgio Sant’Anna (Confissões de Ralfo); Deonísio da Silva (Exposição de motivos); Luís Vilela (Tremor de terra); Sérgio Faraco (Hombre); Domingos Pelegrini (O homem vermelho).
3)Paradoxalmente, nos mesmos idos de 1970, ressurgiu uma espécie de realismo social à moda antiga, traduzido por relatos que representavam de maneira direta os dramas das camadas subalternas, sem muitas preocupações com a linguagem.

Era uma resposta à censura imposta pelo regime militar que proibia a imprensa de noticiar os aspectos negativos do país. Era também uma forma de solapar a idéia do "milagre econômico", então dominante nos meios de comunicação, através do registro dos excluídos, das prostitutas, dos operários, dos camponeses, da gente sem eira nem beira, todos sonegados da visão ufanista do governo. Muitas destas obras não passavam de reportagens ficcionalizadas, escritas por jornalistas que se utilizavam da ficção para driblar a censura. O expoente do grupo, contudo, era um bom escritor, João Antônio, que tinha produzido os seus melhores contos nos anos de 1960 e que agora, como um cavaleiro andante, lutava para que os pobres do Brasil encontrassem seu lugar na literatura. No prefácio de Malditos escritores, João Antônio defende a arte como “um corpo-a-corpo com a vida”:
Estes escritos cometem (intencionalmente) quase todas as heresias diante de alguns conceitos tradicionais do purismo do fazer literário. (...) Desse corpo-a-corpo nasce uma escritura descarnada.(...) a refletir sem floreio, impostura ou retoques, um mundo de suores, amordaçamentos, pelejas e medos.

Nesta linhagem do realismo social explícito figuram Wander Pirolli, Domingos Pellegrini Jr.Mais recentemente a obra de Paulo Lins, Cidade de Deus poderia ser enquadrada na referida tendência, com a vantagem de apresentar uma "visão de dentro" do universo semi-marginal urbano.

4) Neste período, a ficção introspectiva, à maneira de Clarice Lispector, foi reafirmada nas obras de Caio Fernando de Abreu, Morangos mofados, João Gilberto Noll, Hotel Atlântico e Lya Luft, As parceiras, entre outros. De certa forma, a exploração da subjetividade e a procura da identidade mais profunda dos seres era produto do grau maior de complexidade alcançado pela sociedade brasileira.

5) A partir da década de 1980, possivelmente como uma reação à desintegração das formas tradicionais de narrativa, ganhou espaço o romance histórico, isto é, aquele que evoca fatos e/ou personagens do passado reinterpretados por meio de uma visão crítica e desmistificadora. Normalmente este tipo de romance mantém-se dentro de um código mais ou menos acadêmico de narrar, contrariado experiências similares realizadas por ficcionistas do "boom hispano-americano", na mesma época, marcadas por densa invenção formal.

Ana de Miranda, Boca do Inferno, A divina quimera e Luiz Antonio de Assis Brasil, Videiras de cristal e Concerto campestre são os principais representantes do romance histórico. Mas observe-se que escritores de outra linhagem, a exemplo de Rubem Fonseca, O selvagem da ópera, de Nélida Piñon, República dos sonhos, de Deonísio da Silva, A cidade dos padres e de Moacyr Scliar Sonhos tropicais, também se aventuraram neste terreno com resultados estéticos diversos.

6) Nos últimos anos assistiu-se, por fim, a uma crescente propensão de inúmeros escritores à fabricação de "best sellers", sob encomenda de editores ou não. São romances e novelas que atendem a presumíveis exigências do mercado: temas leves e pitorescos, reconstituições históricas convencionais, registro superficial dos costumes e da psicologia dos protagonistas e completa banalidade estilística. Trata-se de uma ficção descartável e freqüentemente idiota. Com muita propriedade o crítico Flávio Khote designou esses relatos como integrantes de uma nova categoria literária, a da narrativa trivial.


Primeira fase Modernista no Brasil (1922-1930)


Modernismo (1922-1960)

Índice

"Todo este sangue de mil raças / corre em minhas veias / sou brasileiro / mas do Brasil sem colarinho / do Brasil negro / do Brasil índio."

--Sérgio Milliet

Iniciou-se no Brasil com a SAM de 1922. Mas nem todos os participantes da Semana eram modernistas: o pré-modernista Graça Aranha foi um dos oradores. Apesar de não ter sido dominante no começo, como atestam as vaias da platéia da época, este estilo, com o tempo, suplantou os anteriores. Era marcado por uma liberdade de estilo e aproximação da linguagem com a linguagem falada; os de primeira fase eram especialmente radicais quanto a isto.
Didaticamente, divide-se o Modernismo em três fases: a primeira fase, mais radical e fortemente oposta a tudo que foi anterior, cheia de irreverência e escândalo; uma segunda mais amena, que formou grandes romancistas e poetas; e uma terceira, também chamada Pós-Modernismo por vários autores, que se opunha de certo modo a primeira e era por isso ridicularizada com o apelido de neoparnasianismo.

Referências históricas

·        Início do século XX: apogeu da Belle Époque. O burguês comportado, tranqüilo, contando seu lucro. Capitalismo monetário. Industrialização e Neocolonialismo.
·        Reivindicações de massa. Greves e turbulências sociais. Socialismo ameaça.
·        Progresso científico: eletricidade. Motor a combustão: automóvel e avião.
·        Concreto armado: “arranha-céu”. Telefone, telégrafo. Mundo da máquina, da informação, da velocidade.
·        Primeira Guerra Mundial e Revolução Russa.
·        Abolir todas as regras. O passado é responsável. O passado, sem perfil, impessoal. Eliminar o passado.
·        Arte Moderna. Inquietação. Nada de modelos a seguir. Recomeçar. Rever. Reeducar. Chocar. Buscar o novo: multiplicidade e velocidade, originalidade e incompreensão, autenticidade e novidade.
·        Vanguarda - estar à frente, repudiar o passado e sua arte. Abaixo o padrão cultural vigente.

Primeira fase Modernista no Brasil (1922-1930)

Caracteriza-se por ser uma tentativa de definir e marcar posições. Período rico em manifestos e revistas de vida efêmera.
Um mês depois da SAM, a política vive dois momentos importantes: eleições para Presidência da República e congresso (RJ) para fundação do Partido Comunista do Brasil. Ainda no campo da política, surge em 1926 o Partido Democrático que teve entre seus fundadores Mário de Andrade.
É a fase mais radical justamente em conseqüência da necessidade de definições e do rompimento de todas as estruturas do passado. Caráter anárquico e forte sentido destruidor.
Principais autores desta fase: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Antônio de Alcântara Machado, Menotti del Picchia, Cassiano Ricardo, Guilherme de Almeida e Plínio Salgado.

Características

·        busca do moderno, original e polêmico
·        nacionalismo em suas múltiplas facetas
·        volta às origens e valorização do índio verdadeiramente brasileiro
·        “língua brasileira” - falada pelo povo nas ruas
·        paródias - tentativa de repensar a história e a literatura brasileiras
A postura nacionalista apresenta-se em duas vertentes:
·        nacionalismo crítico, consciente, de denúncia da realidade, identificado politicamente com as esquerdas.
·        nacionalismo ufanista, utópico, exagerado, identificado com as correntes de extrema direita.

Manifestos e Revistas

Revista Klaxon — Mensário de Arte Moderna (1922-1923)

Recebe este nome, pois klaxon era o termo usado para designar a buzina externa dos automóveis. Primeiro periódico modernista, é conseqüência das agitações em torno da SAM. Inovadora em todos os sentidos: gráfico, existência de publicidade, oposição entre o velho e o novo.
“— Klaxon sabe que o progresso existe. Por isso, sem renegar o passado, caminha para diante, sempre, sempre.”

Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924-1925)

Escrito por Oswald e publicado inicialmente no Correioda Manhã. Em 1925, é publicado como abertura do livro de poesias Pau-Brasil de Oswald. Apresenta uma proposta de literatura vinculada à realidade brasileira, a partir de uma redescoberta do Brasil.
“— A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela sob o azul cabralino, são fatos estéticos.”
“— A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.”

A Revista (1925-1926)

Responsável pela divulgação dos ideais modernistas em MG. Teve apenas três números e contava com Drummond como um de seus redatores.

Verde-Amarelismo (1926-1929)

É uma resposta ao nacionalismo do Pau-Brasil. Grupo formado por Plínio Salgado, Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida e Cassiano Ricardo. Criticavam o “nacionalismo afrancesado” de Oswald. Sua proposta era de um nacionalismo primitivista, ufanista, identificado com o fascismo, evoluindo para o Integralismo de Plínio Salgado (década de 30). Idolatria do tupi e a anta é eleita símbolo nacional. Em maio de 1929, o grupo verde-amarelista publica o manifesto “Nhengaçu Verde-Amarelo — Manifesto do Verde-Amarelismo ou da Escola da Anta”.

Manifesto Regionalista de 1926

1925 e 1930 é um período marcado pela difusão do Modernismo pelos estados brasileiros. Nesse sentido, o Centro Regionalista do Nordeste (Recife) busca desenvolver o sentimento de unidade do Nordeste nos novos moldes modernistas. Propõem trabalhar em favor dos interesses da região, além de promover conferências, exposições de arte, congressos etc. Para tanto, editaram uma revista. Vale ressaltar que o regionalismo nordestino conta com Graciliano Ramos, José Lins do Rego, José Américo de Almeida, Rachel de Queiroz, Jorge Amado e João Cabral - na 2ª fase modernista.

Revista Antropofagia (1928-1929)

Contou com duas fases (dentições): a primeira com 10 números (1928 e 1929) direção Antônio Alcântara Machado e gerência de Raul Bopp; a segunda foi publicada semanalmente em 16 números no jornal Diário de São Paulo (1929) e seu “açougueiro” (secretário) era Geraldo Ferraz. É uma nova etapa do nacionalismo Pau-Brasil e resposta ao grupo Verde-amarelismo. A origem do nome movimento esta na tela “Abaporu” de Tarsila do Amaral.
1ª fase - inicia-se com o polêmico manifesto de Oswald e conta com Alcântara Machado, Mário de Andrade (2º número publicou um capítulo de Macunaíma), Carlos Drummons (3º número publicou a poesia “No meio do vaminho”); além de desenhos de Tarsila, artigos em favor da língua tupi de Plínio Salgado e poesias de Guilherme de Almeida.
2ª fase - mais definida ideologicamente, com ruptura de Oswald e Mário de Andrade. Estão nessa segunda fase Oswald, Bopp, Geraldo Ferraz, Oswaldo Costa, Tarsila, Patrícia Galvão (Pagu). Os alvos das críticas (mordidas) são Mário de Andrade, Alcântara Machado, Graça Aranha, Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia e Plínio Salgado.
“SÓ A ANTROPOFAGIA nos une, Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. / Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. / De todos os tratados de paz. / Tupi or not tupi, that is the question.” (Manifesto Antropófago)
“A nossa independência ainda não fo proclamada. Frase típica de D. João VI: — Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.” (Revista de Antropofagia, nº 1)

Outras Revistas

·        Revista Verde de Cataguazes (MG - 1927-1928)
·        revista Estética (RJ - 1924)
·        revista Terra Roxa e outras Terras (SP - 1926, colaborador Mário de Andrade)
·        revista Festa (RJ - 1927, Cecília Meireles como colaboradora)

Autores

Alcântara Machado (1901-1935)

Foi um importante escritor modernista da primeira fase, apesar de não ter participado da SAM, integrando o grupo somente em 25. Produziu prosa ficcional, renovando sua estrutura para construir histórias curtas e do cotidiano. Privilegia o imigrante, principalmente o italiano, e sua fusão, ampliando o universo cultural de São Paulo.
Apesar de não ser tão radical como os outros modernistas contemporâneos seus, usava uma linguagem em seus contos que se aproximava muito do falado. Seus personagens do livro de contos Brás, Bexiga e Barra Funda falavam uma mistura de italiano e português. Retrata uma realidade citadina e realista, num tom divertido, enfatizando a vida difícil dos imigrantes e sua ascensão.
Nunca chegou a completar seu romance Mana Maria, que foi publicado um ano depois de sua prematura morte. Pouco antes do fim da vida, rompeu relações com Oswald de Andrade por motivos ideológicos, ao mesmo tempo em que sua amizade com Mário de Andrade se estreitava.
Brás, Bexiga e Barra Funda - contos com fragmentação de episódios, até registro de cenas sem interesse, mapeamento de São Paulo, exótico nos nomes das personagens, menção a produtos de consumo da época, gírias esquecidas etc.
“Ali na Rua Oriente a ralé quando muito andava de bonde. De automóvel ou carro só mesmo em dia de enterro ou casamento. Por isso mesmo o sonho de Gaetaninho era de realização muito difícil. Um sonho. (...) Gaetaninho saiu correndo. Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. Pegou e matou. / No bonde vinha o pai do Gaetaninho. / A gurizada assustada espalhou a notícia na noite. / — Sabe o Gaetaninho? / — Que é que tem? / — Amassou o bonde! / (...) às dezesseis horas do dia seguinte saiu um enterro da Rua do Oriente e Gaetaninho não ia na boléia de nenhum dos carros do acompanhamento. Ia no da frente dentro de um caixão fechado com flores pobres por cima.”
Laranja da China - luso-brasileiro toma o lugar do italiano, ainda na linha do cotidiano em suas minúcias. Todos os contos apresentam uma espécie de paródia desde o título: O Revoltado Robespierre (Sr. Natanael Robespierre dos Anjos).
Obras principais:
·        Pathé Baby (1926)
·        Brás, Bexiga e Barra Funda (1927)
·        Laranja da China (1928)
·        Anchieta na Capitania de São Vicente (1928)
·        Mana Maria (romance inacabado e publicado pós-morte 1936)
·        Cavaquinho e Saxofone (coletânea de artigos e estudos, 1940)
Escreveu para Terra Roxa e Outras Terras (um de seus fundadores), para a Revista Antropofagia e para a Revista Nova (que dirigiu).

Cassiano Ricardo (1895-1974)

Paulista, Cassiano deixou uma obra marcada pelas tendências de seu tempo sem, entretanto, deixar um estilo próprio. Iniciou sua carreira com Dentro da Noite (1915) neo-simbolismta, passou por tendências parnasianas em A Frauta de Pã (1917, para integrar-se ao Verde-amarelismo com Vamos Caçar Papagaios (1926). Com o formalismo de 45, torna-se meditativo e melancólico. Em 1960, entra para a corrida vanguardista com experimentalismo e franca adesão ao Concretismo e à Poesia Praxis.
Obras principais:
·        Poesia:
o   Dentro da Noite (1915)
o   A Frauta de Pã (1917)
o   Vamos Caçar Papagaios (1926)
o   Martim-Cererê (1928)
o   Deixa Estar, Jacaré (1931)
o   O Sangue das Horas (1943)
o   Um Dia depois do Outro (1947)
o   A Face Perdida (1950)
o   Poemas Murais (1950)
o   Sonetos (1952)
o   João Torto e A Fábula (1956)
o   Arranha-Céu de Vidro (1956)
o   Poesias Completas (1957)
o   Montanha Russa (1960)
o   A Difícil Manhã (1960)
o   Jeremias sem Chorar (1964)
·        Prosa:
o   O Brasil no Original (1936)
o   O Negro na Bandeira (1938)
o   A Academia e a Prosa Moderna (1939)
o   Pedro Luís Visto Pelos Modernos (1939)
o   Marcha para o Oeste (1943)
o   A Academia e a Língua Brasileira (1943)
o   A Poesia na Técnica do Romance (1953)
o   O Homem Cordial (1959)
o   22 e a Poesia de Hoje (1962)
o   Reflexos sobre a Poética de Vanguarda (1966)

Guilherme de Almeida (1890-1969)

Sempre se ajustou aos padrões e foi disciplinado, com mestria sobre a língua e seus dispositivos técnicos. Exímio poeta que pode ter sua obra dividida em três etapas:
·        Pré-modernista - Nós (só de sonetos, 1917), A Dança das Horas (1919), Messidor (contendo os dois anteriores mais A Suave Colheita, 1919), Livro de Horas de Sóror Dolorosa (1920) e Era Uma Vez..., (1922) - influência parnasiano-simbolista, habilidoso artista do verso
·        Modernismo - A Frauta que Eu Perdi (subtítulo Canções Gregas, 1924) Meu (1925) e Raça (1925) - versos livres, sonoridade e ressurgir de algumas rimas. Raça (rapsódia da mestiçagem brasileira) pertence ao nacionalismo estético com nomeação metonímica (português = velho cavaleiro, índio reluz em cores e preto = samba), versos grandes, frases nominais e vocábulos mais raros.
·        Pós-Modernismo - Você (1930), Acaso (1938), Poesia Vária (1947), Camoniana (1956) e Pequeno Cancioneiro (1956) - retorno ao ponto de origem: versos metrificados, rimas raras, sonetos e sentimentalismo. Apanágio da técnica, reconstitui a maneira de Camões e dos Cancioneiros

“Há uma encruzilhada de três estradas sob a minha cruz de estrelas azuis: / três caminhos se cruzam — um branco, um verde e um preto — três hastes da grande cruz. / E o branco que veio do norte, e o verde que veio da terra, e o preto que veio do leste. / derivam num novo caminho, completam a cruz unidos num só, fundidos num vértice. / Fusão ardente na fornalha tropical de barro vermelho, cozido, estalando ao calor modorrento dos sóis imutáveis: (...)”

--Minha Cruz!, in Raça

Manuel Bandeira (1886-1968)

É uma das figuras mais importantes da poesia brasileira e um dos iniciadores do Modernismo. Do penumbrismo pós-simbolista de A Cinza das Horas às experiências concretas da década de 60 de Composições e Ponteios, a poesia de Bandeira destaca-se pela consciência técnica com que manipulou o verso livre. Participa indiretamente da SAM, quando Ronald de Carvalho declama seu poema Sapos.
Sempre pensando que morreria cedo (tuberculoso), acabou vivendo muito e marcando a literatura brasileira. Morte e infância são as molas propulsoras de sua obra. Ironizava o desânimo provocado pela doença, mas em Cinza das Horas apresenta melancolia e sofrimento por causa da “dama branca”. Além de ser um poeta fabuloso, também foi ensaísta, cronista e tradutor. O próprio autor define sua poesia como a do "gosto humilde da tristeza".

“Febre, hemoptise, dispnéia, e suores noturnos. / A vida inteira que podia ter sido e que não foi. / Tosse, tosse, tosse. / Mandou chamar o médico: / — Diga trinta e três. / — Trinta e três... trinta e três... trinta e três... / — Respire. (...) / — O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado. / — Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? / — Não. A única coisa a fazer e tocar um tango argentino.”

--Pneumotórax

Ritmo Absoluto e Libertinagem são frutos de um processo de integração com o Rio. Sua poesia contagia-se de uma visão erótico-sentimental, resultante da forma de encarar o amor a partir da experiência do corpo. Libertinagem usa lirismo solto, repleto de cenas do cotidiano, com verdadeiras aulas de solidariedade e ternura.

“Irene preta / Irene boa / Irene sempre de bom humor. / Imagino Irene entrando no céu: / — Licença, meu branco! / E São Pedro bonachão: / — Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.”

--Irene no Céu, in Libertinagem

Em Estrela da Manhã, atinge a plenitude de seu lirismo libertário, mostrando que tudo pode ser matéria poética: um clássico esquecido, uma frase de criança, uma notícia de jornal, a casa em que morava e até mesmo uma propaganda de três sabonetes (Baladas das três mulheres do sabonete Araxá).
Obras principais:
·        Poesia:
o   A Cinza das Horas (1917)
o   Carnaval (1919)
o   O Ritmo Dissoluto (1924)
o   Libertinagem (1930)
o   Estrela da Manhã (1936)
o   Lira dos Cinquent’Anos (1940)
o   Belo, Belo (1948)
o   Mafuá do Malungo (1948)
o   Opus 10 (1952)
o   Estrela da Tarde (1963)
o   Estrela da Vida Inteira (1966)
·        Prosa:
o   Crônicas da Província do Brasil (1937)
o   Guia de Ouro Preto (1938)
o   Noções de História das Literaturas (1940)
o   Literatura Hispano-Americana (1949)
o   Gonçalves Dias (1952)
o   Itinerário de Pasárgada (1954)
o   De Poetas e de Poesia (1954)
o   Flauta de papel (1957)
o   Andorinha, Andorinha (seleção de Carlos Drummond de Andrade, 1966)
o   Colóquio Unilateralmente Sentimental (1968)

Mário de Andrade (1893-1945)

Um dos organizadores do Modernismo e da SAM, foi o que apresentou projeto mais consistente de renovação. Começou escrevendo críticas de arte e poesia (ainda parnasiana) com o pseudônimo de Mário Sobral. Rompeu com o Parnasianismo e o passado com Paulicéia Desvairada e a Semana, da qual participou ativamente.
Injetou em tudo que fez um senso de problemático brasileirismo, daí sua investida no folclore. De jeito simples, sua coloquialidade desarticulou o espírito nacional de uma montanha de preconceitos arcaicos. Lutou sempre por uma literatura brasileira e com temas brasileiros.
“O passado é lição para se meditar e não para se reproduzir” - afirmava assim a necessidade de um presente novo, inventivo. Acreditava na arte como instrumento de debate e de combate, comportamento evidenciado em Paulicéia Desvairada. Esta obra oferece uma panorâmica da cidade e de sua vida, ao criticar a mania obsessiva de posse, aqui também satiriza a incompetência dos administradores.

“Oh! Minhas alucinações” / Vi os deputados, chapéus altos / sob o pálio vesperal, feito de mangas-rosas, / saírem de mãos dadas do Congresso... / Como um possesso num acesso em meus aplausos / aos salvadores do meu estado amado! (...) / Mas os deputados, chapéus altos / Mudavam-se pouco a pouco em cabras! / Crescem-lhes os cornos, decemlhes as barbichas... (...) / se punham a pastar / rente do palácio do senhor presidente... / Oh! Minhas alucinações!”

--O rebanho, in Paulicéia Desvairada

Sua faceta de teórico de estética literária pode ser avaliado em A Escrava que não é Isaura, onde expõe pequenos e paliativos remédios da farmacopéia didático-técnico-poética do Modernismo.

“Eu creio que os modernistas da Semana de Arte Moderna não devemos servir de exemplo a ninguém. Mas podemos servir de lição. O homem atravessa uma fase integralmente política da humanidade. Nunca jamais ele foi tão ‘momentâneo’ como agora.”

--O Movimento Modernista - conferência

Clã do Jabuti resulta da viagem de descoberta do Brasil, numa aproximação com o folclore como fonte de criação poética. Apoiando-se nas tradições populares brasileiras, utiliza a toada, o coco, a moda, o samba para sustentar seus poemas.
Seu primeiro romance é Amar, Verbo Intransitivo que penetra na estrutura familiar da burguesia paulistana, sua moral e seus preconceitos. Aborda, ao mesmo tempo, os sonhos e a adaptação dos imigrantes na agitada Paulicéia.
Já em Macunaíma, Herói sem nenhum caráter, cria um anti-herói com um perfil indolente, brigão, covarde, sincero, mentiroso, trabalhador, preguiçoso, malandro, otário - multifacetado. Inspirando-se no folclore indígena da Amazônia, mesclando a lendas e tradições das mais variadas regiões do Brasil, constrói-se um herói que encarna o homem latino-americano. Macunaíma é uma figura totalmente fora dos esquemas tradicionais da prosa de ficção, uma aglutinação de alguns possíveis tipos brasileiros. Sempre na defesa, Macunaíma começa comendo terra e acaba sendo comido pela terra.
Renate de Males já evidencia certo distanciamento em relação ao desvairismo inicial. Em Contos de Belazarte, manifesta acentuada preocupação com uma análise psicológico-social das relações familiares, reveladas através de uma linguagem inovadora (sintático e lexicalmente).
Na obra Lira Paulistana, Mário faz uma interpretação poética de seu destino e integração com a cidade de São Paulo. O reflexo do eu na transparência do rio Tietê mostra as águas do rio como se fosse um espelho mágico.

Inspiração - “São Paulo! comoção de minha vida ... / Os meus amores são flores feitas de original... / Arlequinal!... Traje de losangos... Cinza e ouro... / Luz e bruma... Forno e inverno morno... / Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes... / Perfumes de Paris... Arys!”

--in Poesias Completas

O Banquete é um explosivo depoimento sobre as linhas mestras do pensamento estético de Mário de Andrade, além de constituir uma sátira sobre certos comportamentos típicos no tempo da ditadura estadonovista.

"Pouca saúde e muita saúva os males do Brasil são."

--Macunaíma

Obras Principais
·        Poesia
o   Há uma Gota de Sangue em casa Poema (1917)
o   Paulicéia Desvairada (1922)
o   Losango Cáqui (1926)
o   Clã do Jabuti (1927)
o   Remate de males (1930)
o   Poesias (1941)
o   Lira Paulistana (1946)
o   O Carro da Miséria (1946)
o   Poesias Completas (1955)
·        Conto
o   Primeiro Andar (1926)
o   Balazarte (1934)
o   Contos Novos (1946)
·        Romance
o   Amar, Verbo Intransitivo (1927)
o   Macunaíma (1928)
·        Ensaio
o   A Escrava que não é Isaura (1925)
o   O Aleijadinho e Álvares de Azevedo (1935)
o   O Baile das Quatro Artes (1943)
o   Aspectos da Literatura Brasileira (1943)
o   O Empalhador de Passarinhos (1944)
o   O Banquete (1978)
·        Crônicas
o   Os Filhos da Candinha (1943)
·        Musicologia e Folclore
o   Ensaio sobre Música Brasileira (1928)
o   Compêndio de História da Música (1929)
o   Modinhas e Lundus Imperiais (1930)
o   Música, Doce Música (1933)
o   Namoros com a Medicina (1939)
o   Música do Brasil (1941)
o   Danças Dramáticas do Brasil (1959)
o   Música de Feitiçaria (1963)
·        História da Arte
o   Padre Jesuíno de Monte Melo (1946)
o   outros folhetos reunidos nas Obras Completas

Oswald de Andrade (1890-1853)

Foi poeta, romancista, ensaísta e teatrólogo. Figura de muito destaque no Modernismo Brasileiro, ele trouxe de sua viagem a Europa o Futurismo. Formado em Direito, Oswald era um playboy extravagante: usa luvas xadrez e tinha um Cadillac verde apenas porque este tinha cinzeiro, para citar apenas algumas de suas muitas extravagâncias. Amigo de Mário de Andrade, era seu oposto: milionário, extrovertido, mulherengo (casou-se 5 vezes, as mais célebres sendo as duas primeiras esposas: Tarsila do Amaral e Patrícia "Pagu" Galvão).

“Viajei, fiquei pobre, fiquei rico, casei, enviuvei, casei, divorciei, viajei, casei... já disse que sou conjugal, gremial e ordeiro. O que não me impediu de ter brigado diversas vezes à portuguesa e tomado parte em algumas batalhas campais.”

--nota autobiográfica - Diário de Notícias

Foi um dos principais artistas da Semana de Arte Moderna e lançou o Movimento Pau-Brasil e a Antropofagia, corrente que pretendia devorar a cultura européia e brasileira da época e criar uma verdadeira cultura brasileira. Fazendeiro de café, perdeu tudo e foi à falência em 1929 com o crash da Bolsa de Valores. Militante esquerdista, passou a divulgar o Comunismo junto com Pagu em 1931, mas desligou-se do Partido em 1945.
Sua obra é marcada por irreverência, coloquialismo, nacionalismo, exercício de demolição e crítica. Incomodar os acomodados, estimular o leitor através de palavras de coragem eram constantes preocupações desse autor.

“A situação ‘revolucionária’ desta bosta mental sul-americana apresentava-se assim: o contrário do burguês não era o proletário — era o boêmio! As massas, ignoradas no território e como hoje, sob a completa devassidão econômica dos políticos e dos ricos. Os intelectuais brincando de roda.”

--prefácio de Serafim Ponte Grande

Depois de participar da SAM, viaja à Europa e o diário de bordo destas viagens é o romance cubista Memórias Sentimentais de João Miramar, que os críticos chamaram de prosa telegráfica. Este romance-caleidoscópio inaugura, no nível da prosa, a tendência antinormativa da literatura contemporânea, rompendo os modelos realistas. Seus 163 fragmentos registram a tragetória do brasileiro rico de todos os tempos: Europa ? casamento ?amante ?desquite ?vida literária ?apertos financeiros ? ...

“Beiramávamos em auto pelo espelho de aluguel arborizado das avenidas marinhas sem sol. / Losango, tênues de ouro bandeiranacionalizavam o verde dos montes interiores. / No outro lado azul da baía a Serra dos Órgãos serrava. / Barcos. E o passado voltava na brisa de baforadas gostosas. Tolah ia vinha derrapava entrava em túneis. / Copacabana em um duelo arrepiado na luminosa noite varada pelas frestas da cidade.”

--66. Botafogo, in Memórias Sentimentais de João Miramar

Em Paris, deslumbrado, descobriu a própria Terra: tinha nventado a poesia de exportação — o Pau-Brasil. Poemas-pílilas, onde mistura-se a linguagem antiga dos cronistas e jesuítas com o modo de falar atual. Com essa mistura, tempera seus poemas com sua fina ironia.

relicácio - “No baile da Corte / Foi o Conde d’Eu quem disse / Pra Dona Benvinda / Que farinha de Suruí / Pinga de Parati / Fumo de Baependi / É comê bebê pitá e caí”

--Pau-Brasil

O momento esteticamente mais radical do Modernismo foi a Antropofagia. Invocando a cultura e os costumes primitivos do Brasil, este movimento afirma a necessidade de sermos um povo antropófago, para não nos atrofiarmos culturalmente. Deve-se filtrar as contribuições estrangeiras para alcançar uma síntese transformadora.
Com a crise econômica de 1929, Oswald passa por difíceis condições financeiras e se vê obrigado a conjugar o verbo “crakar”

“Eu empobreço de repente / Tu enriqueces por minha causa / Ele azula para o sertão / Nós entramos em concordata / Vós protestais por preferência / Eles escafedem a massa / Sê pirata / Sede trouxas / Abrindo o pala / Pessoal sarado / Oxalá eu tivesse sabido que esse verbo era irrregular.”

--Memórias Sentimentais de João Miramar

Falido economicamente, Oswald vai se pendurar nos “reis da vela”, os agiotas do beco do escarro (zona bancária de SP). Com isso, o autor vai recolhendo material para sua peça O Rei da Vela.
Serafim Ponte Grande é o romance que testemunha a fase de identidade ideológica com a esquerda. Serafim encarna o mito do herói latino-americano individual que parte como um louco em busca da libertação e da utopia. . Oswald projeta em Serafim o herói que vai remar sempre contra a corrente do inconformismo, procurando romper, através da crítica, do sarcasmo e da ironia as rédeas sufocantes do ser burguês. Por ser o sonhe de Serafim individual, acaba frustrando-se e, depois de aprender as duras realidades da vida, torna-se um irrecuperável marginal que cai fora do sistema.

“— Tudo é tempo e contra-tempo! E o tempo é eterno. Eu sou uma forma vitoriosa do tempo. Em luta seletiva, antropofágica. Com outras formas do tempo: moscas, eletro-éticas, cataclismas, polícias e marimbondos! / Ó criadores das elevações ertificiais do destino eu vos digo! A felicidade do homem é uma felicidade guerreira. Tenho dito. Viva a rapaziada! O gênio é uma longa besteira!”

--Serafim Ponte Grande

Morreu sofrendo dificuldades de saúde e financeiras, mas sem perder o contato com os artistas da época.
epitáfio - “Eu sou redondo, redondo / Redondo, redondo eu sei / Eu sou uma redond’ilha / Das mulheres que beijei / Vou falecer do oh! amor / Das mulheres de minh’ilha / Minha caveira rirá ah! ah! ah! / Pensando na redondilha”
Obras principais:
·        Poesia
o   Pau-Brasil (1925)
o   Primeiro Caderno de Poesia do Aluno Oswald de Andrade (1927)
o   Poesias Reunidas (edição póstuma)
·        Romance
o   Os Condenados (I - Alma, II - Estrela do Absinto, III - A escada, 1922 a 1934)
o   Memórias Sentimentais de João Miramar (1924)
o   Serafim Ponte Grande (1933)
o   Marco Zero (I - A Revolução Melancólica, II - Chão, 1943 a 1946)
·        Manifestos, teses e ensaios
o   Manifesto Pau-Brasil (1925)
o   Manifesto Antropófago (1928)
o   A Arcádia e a Inconfidência (1945)
o   Ponta de Lança (1945)
o   A Crise da Filosofia Messiânica (1946)
o   A Marcha das Utopias (1966)
·        Teatro
o   O Homem e o Cavalo (1934)
o   O Rei da Vela (1937)
o   A Morta (1937)
o   O Rei Floquinhos (Infantil, 1953)
·        Memórias
o   Um Homem sem Profissão (1954)
·        Crônicas
o   Telefonemas (edição póstuma)

Textos


Evocação do Recife
Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais.
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois — Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância (...)

--Manuel Bandeira


Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha  me contar
Vou-me embora pra Pasárgada.
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

--Manuel Bandeira



pronominais
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

--Fragmentos do livro de poesias Pau-Brasil, de Oswald de Andrade


erro de português
Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
o português.

--Fragmentos do livro de poesias Pau-Brasil, de Oswald de Andrade




Mário de Andrade
Eu insulto o burguês! O burguês níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os ‘Printemps’ com as unhas!
Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas! (...)

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo1 Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!...

--Fragmentos de Ode ao Burguês